Relatividade especial
Compare referenciais, entenda tempo e comprimento próprios e conecte composição de velocidades, energia e momento relativísticos.
Objetivos de aprendizagem
- Distinguir transformação galileana de relativística.
- Identificar medidas próprias antes de calcular.
- Conferir energia e momento por uma relação invariante.
Está difícil? Revise antes: Movimento e Aceleração Constante, Quantidade de Movimento e Sentido, Trabalho e Transformações de Energia, Potências, Raízes e Notação Científica, Equação de 2º Grau
Já domina esses conhecimentos? Continue para o conceito.
Entenda o conceito
Uma pessoa caminha a 2 m/s para a frente dentro de um trem que passa a 10 m/s. No modelo clássico, o solo mede 12 m/s. A velocidade depende do referencial, mas as leis de Newton têm a mesma forma entre referenciais inerciais. Um evento é algo localizado no espaço e no tempo: por exemplo, uma lâmpada piscar em certo ponto. Comparar eventos exige réguas e relógios, não apenas “o que parece mais rápido”.
Considere S′ movendo-se a velocidade v no sentido +x de S, com origens coincidentes em t=0. Galileu usa x′=x−vt e t′=t. Assim u′=u−v. Tempo e simultaneidade são absolutos nesse modelo. Ele funciona muito bem quando as velocidades são pequenas em comparação com c, a velocidade da luz no vácuo, aproximadamente 3×10⁸ m/s.
Michelson e Morley compararam tempos de ida e volta de luz em braços perpendiculares de um interferômetro, buscando a diferença esperada de um movimento através do éter. Não observaram o deslocamento sistemático de franjas esperado pelo modelo testado. Esse resultado limitou aquele modelo de éter e é parte da história experimental; não significa ausência de movimento terrestre nem constitui sozinho uma dedução de toda a relatividade.
Einstein parte de dois postulados: as leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais; todos eles medem o mesmo c para a luz no vácuo, independentemente do movimento da fonte. Somar c e a velocidade do trem pela regra clássica contrariaria o segundo. Espaço e tempo precisam transformar-se juntos. Com β=v/c e γ=1/√(1−β²), as transformações são x′=γ(x−vt), t′=γ(t−vx/c²), y′=y e z′=z. Para v≪c, γ≈1 e recuperamos aproximadamente Galileu.
O termo vx/c² mostra que eventos simultâneos em S, mas separados em x, em geral não são simultâneos em S′. Para usar as fórmulas, descreva quais eventos estão sendo comparados. γ≥1 para |v|<c; v=c não é um referencial de repouso permitido para relógio ou corpo com massa. Não explique os efeitos como simples atraso visual da luz: medidas já consideram propagação dos sinais.
Tempo próprio Δτ é o intervalo medido por um único relógio presente nos dois eventos, como dois tiques de um relógio que viaja com a nave. Um referencial em que esse relógio se move mede Δt=γΔτ. Um relógio de luz ajuda a entender: no seu repouso, a luz sobe e desce verticalmente; visto de fora, percorre uma diagonal maior. Como c é o mesmo, o intervalo externo é maior. Se β=0,6, γ=1,25; 4 s próprios correspondem a 5 s externos.
Comprimento próprio L₀ é medido no repouso do objeto. Para medir um objeto em movimento, o observador deve registrar suas duas extremidades simultaneamente no seu referencial. Na direção do movimento, L=L₀/γ; dimensões transversais não sofrem essa contração. Uma barra de 10 m próprios a 0,6c mede 8 m no laboratório. A exigência de simultaneidade é diferente nos dois referenciais; não confunda contração com foto em perspectiva.
Se um objeto tem velocidade u′ em S′ ao longo do mesmo eixo e S′ move-se a v em S, então u=(u′+v)/(1+u′v/c²). Com u′=0,6c e v=0,6c, u=(1,2/1,36)c=(15/17)c, menor que c. Com u′=c, o resultado é c. Se uma velocidade aponta contra +x, use sinal negativo; não some somente módulos. No limite lento, o denominador fica próximo de 1.
Usaremos massa invariante m, também chamada massa de repouso, sem fazê-la aumentar com a velocidade. Momento é p=γmv, energia total E=γmc² e energia de repouso E₀=mc². Energia cinética K=E−E₀=(γ−1)mc². Elas obedecem E²=(pc)²+(mc²)². Um fóton tem massa de repouso zero e E=pc, sem referencial de repouso; não use γm com v=c como produto de zero por infinito.
Para v pequeno, K se aproxima de mv²/2 e p de mv. Perto de c, aumentar a velocidade exige energia cada vez maior para um corpo com massa; γ diverge quando v se aproxima de c. Em reações, a massa de repouso total de um sistema inclui sua energia interna dividida por c²: energia liberada pode reduzir a massa de repouso dos produtos, mantendo a energia total conservada. Diferencie E, E₀ e K antes de substituir dados.
Uma boa ordem de resolução é nomear os referenciais e eventos, identificar o que é próprio, calcular β e γ, escolher a relação e conferir o limite clássico. Tempo externo deve ser maior que o próprio no caso de relógio inercial em movimento; comprimento longitudinal, menor que o próprio. Para energia, a identidade entre E, p e m fornece uma conferência independente.
- Referencial inercial
- Referencial em que um corpo livre mantém velocidade constante.
- Tempo próprio
- Intervalo de eventos no mesmo local do referencial do relógio.
- Comprimento próprio
- Comprimento no repouso do objeto.
- Massa invariante
- Massa que aparece em E₀=mc² e não depende do referencial.
Fórmulas explicadas
Compara medidas de tempo e comprimento.
Quando usar: Referenciais inerciais; contração ao longo do movimento; medir extremidades simultaneamente.
Cuidado: Não troque a medida própria pela observada.
- c
- velocidade da luz no vácuo Unidade: m/s
- v
- velocidade relativa Unidade: m/s
- γ
- fator de Lorentz
Compõe velocidades colineares com sinais.
Quando usar: S′ move-se a v em S; eixos paralelos.
Cuidado: A soma simples só aproxima velocidades pequenas.
- u′
- velocidade em S′
- u
- velocidade em S
Conecta energia total, repouso e momento.
Quando usar: Para partícula livre; fóton satisfaz E=pc.
Cuidado: Energia total não é energia cinética.
- E
- energia total Unidade: J
- p
- momento Unidade: kg·m/s
- m
- massa invariante Unidade: kg
Exemplo resolvido passo a passo
Qual relógio mede os eventos?
Enunciado
Uma nave passa a 0,6c. Entre dois tiques do mesmo relógio a bordo passam 8 s. Qual intervalo o laboratório atribui aos tiques?
- Dados
-
- v/c=0,6
- Δτ=8 s
- Fórmula
- Δt=γΔτ
- Substituição
- γ=1/√(1−0,36)=1,25
Resolução
- Os tiques ocorrem no mesmo relógio da nave: 8 s são próprios.
- No laboratório esse relógio se move; Δt=1,25×8=10 s.
- O intervalo externo é maior, conforme a geometria do relógio de luz.
Resultado: 10 s.
Interpretação: Não se trata do tempo de chegada dos sinais ao olho do observador.
Exercícios com solução
Tente resolver sem consultar a resposta; uma estimativa inicial ajuda a perceber sinal, unidade e ordem de grandeza.
Exercício 1 · Exercício guiado
S′ move-se a 3 m/s em S. No modelo galileano, um evento tem x=20 m,t=4 s. Ache x′,t′. Para dois eventos simultâneos em S separados por Δx≠0, serão simultâneos em S′ na transformação de Lorentz com v≠0?
Ver solução passo a passo
Solução passo a passo
- x′=20−3×4=8 m; t′=4 s.
- Na transformação relativística, Δt′=−γvΔx/c² para Δt=0.
- Como v e Δx são não nulos, não são simultâneos em S′.
Resposta: 8 m e 4 s no modelo clássico; em geral não simultâneos no relativístico.
Exercício 2 · Prática independente
Uma barra de 15 m no repouso passa a 0,8c. Um relógio junto dela registra 6 s entre tiques. Determine γ, comprimento no laboratório e intervalo entre os tiques no laboratório.
Ver solução passo a passo
Solução passo a passo
- γ=1/√(1−0,64)=5/3.
- L=15×3/5=9 m.
- Δt=(5/3)×6=10 s; só a dimensão paralela contrai.
Resposta: γ=5/3; 9 m; 10 s.
Exercício 3 · Aplicação em nível de prova
Uma nave vai a 0,6c em relação ao laboratório e lança uma sonda a 0,8c para a frente em seu referencial. Qual velocidade da sonda no laboratório? E a de um feixe luminoso emitido para a frente?
Ver solução passo a passo
Solução passo a passo
- u/c=(0,8+0,6)/(1+0,48)=35/37.
- A soma clássica 1,4c falha; 35/37 é menor que 1.
- Substituir u′/c=1 dá (1+0,6)/(1+0,6)=1.
Resposta: Sonda (35/37)c; luz c.
Exercício 4 · Aplicação em nível de prova
Uma partícula tem energia de repouso 12 unidades e velocidade 0,6c. Determine E, K e pc nessas unidades. Confira E²−(pc)².
Ver solução passo a passo
Solução passo a passo
- γ=5/4; E=15 e K=15−12=3.
- pc=(5/4)×12×(3/5)=9.
- 15²−9²=144=12², conferindo a massa invariante.
Resposta: E=15; K=3; pc=9; invariante 144.
Exercício 5 · Checagem conceitual
Um relatório diz: “Michelson-Morley provou que a Terra está parada; um emissor rápido faz a luz no vácuo ultrapassar c”. Avalie as duas conclusões.
Ver solução passo a passo
Solução passo a passo
- O resultado não foi o deslocamento sistemático esperado pelo modelo de éter testado; não prova repouso terrestre.
- O segundo postulado mantém c no vácuo nos referenciais inerciais, independentemente da fonte.
- O modelo clássico continua uma aproximação útil quando v/c é muito pequeno.
Resposta: Ambas as conclusões são falsas.
Você aprendeu
- Declare os eventos e a medida própria.
- Velocidades pequenas recuperam aproximadamente o modelo clássico.
- E, energia de repouso e energia cinética são quantidades distintas.
Fontes e atualização
Conteúdo revisado em 12/10/2026.
- Referenciais, tempo, comprimento e energia — OpenStax — Rice University. Referenciais, tempo, comprimento e energia