Física · Intermediário

Relatividade especial

Compare referenciais, entenda tempo e comprimento próprios e conecte composição de velocidades, energia e momento relativísticos.

3 objetivos 1 exemplo resolvido 5 exercícios com resposta Pré-requisitos: 5 aulas para revisar
Ao final da aula

Objetivos de aprendizagem

  • Distinguir transformação galileana de relativística.
  • Identificar medidas próprias antes de calcular.
  • Conferir energia e momento por uma relação invariante.

Está difícil? Revise antes: Movimento e Aceleração Constante, Quantidade de Movimento e Sentido, Trabalho e Transformações de Energia, Potências, Raízes e Notação Científica, Equação de 2º Grau

Já domina esses conhecimentos? Continue para o conceito.

Fundamento

Entenda o conceito

Uma pessoa caminha a 2 m/s para a frente dentro de um trem que passa a 10 m/s. No modelo clássico, o solo mede 12 m/s. A velocidade depende do referencial, mas as leis de Newton têm a mesma forma entre referenciais inerciais. Um evento é algo localizado no espaço e no tempo: por exemplo, uma lâmpada piscar em certo ponto. Comparar eventos exige réguas e relógios, não apenas “o que parece mais rápido”.

Considere S′ movendo-se a velocidade v no sentido +x de S, com origens coincidentes em t=0. Galileu usa x′=x−vt e t′=t. Assim u′=u−v. Tempo e simultaneidade são absolutos nesse modelo. Ele funciona muito bem quando as velocidades são pequenas em comparação com c, a velocidade da luz no vácuo, aproximadamente 3×10⁸ m/s.

Michelson e Morley compararam tempos de ida e volta de luz em braços perpendiculares de um interferômetro, buscando a diferença esperada de um movimento através do éter. Não observaram o deslocamento sistemático de franjas esperado pelo modelo testado. Esse resultado limitou aquele modelo de éter e é parte da história experimental; não significa ausência de movimento terrestre nem constitui sozinho uma dedução de toda a relatividade.

Einstein parte de dois postulados: as leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais; todos eles medem o mesmo c para a luz no vácuo, independentemente do movimento da fonte. Somar c e a velocidade do trem pela regra clássica contrariaria o segundo. Espaço e tempo precisam transformar-se juntos. Com β=v/c e γ=1/√(1−β²), as transformações são x′=γ(x−vt), t′=γ(t−vx/c²), y′=y e z′=z. Para v≪c, γ≈1 e recuperamos aproximadamente Galileu.

O termo vx/c² mostra que eventos simultâneos em S, mas separados em x, em geral não são simultâneos em S′. Para usar as fórmulas, descreva quais eventos estão sendo comparados. γ≥1 para |v|<c; v=c não é um referencial de repouso permitido para relógio ou corpo com massa. Não explique os efeitos como simples atraso visual da luz: medidas já consideram propagação dos sinais.

Tempo próprio Δτ é o intervalo medido por um único relógio presente nos dois eventos, como dois tiques de um relógio que viaja com a nave. Um referencial em que esse relógio se move mede Δt=γΔτ. Um relógio de luz ajuda a entender: no seu repouso, a luz sobe e desce verticalmente; visto de fora, percorre uma diagonal maior. Como c é o mesmo, o intervalo externo é maior. Se β=0,6, γ=1,25; 4 s próprios correspondem a 5 s externos.

Comprimento próprio L₀ é medido no repouso do objeto. Para medir um objeto em movimento, o observador deve registrar suas duas extremidades simultaneamente no seu referencial. Na direção do movimento, L=L₀/γ; dimensões transversais não sofrem essa contração. Uma barra de 10 m próprios a 0,6c mede 8 m no laboratório. A exigência de simultaneidade é diferente nos dois referenciais; não confunda contração com foto em perspectiva.

Se um objeto tem velocidade u′ em S′ ao longo do mesmo eixo e S′ move-se a v em S, então u=(u′+v)/(1+u′v/c²). Com u′=0,6c e v=0,6c, u=(1,2/1,36)c=(15/17)c, menor que c. Com u′=c, o resultado é c. Se uma velocidade aponta contra +x, use sinal negativo; não some somente módulos. No limite lento, o denominador fica próximo de 1.

Usaremos massa invariante m, também chamada massa de repouso, sem fazê-la aumentar com a velocidade. Momento é p=γmv, energia total E=γmc² e energia de repouso E₀=mc². Energia cinética K=E−E₀=(γ−1)mc². Elas obedecem E²=(pc)²+(mc²)². Um fóton tem massa de repouso zero e E=pc, sem referencial de repouso; não use γm com v=c como produto de zero por infinito.

Para v pequeno, K se aproxima de mv²/2 e p de mv. Perto de c, aumentar a velocidade exige energia cada vez maior para um corpo com massa; γ diverge quando v se aproxima de c. Em reações, a massa de repouso total de um sistema inclui sua energia interna dividida por c²: energia liberada pode reduzir a massa de repouso dos produtos, mantendo a energia total conservada. Diferencie E, E₀ e K antes de substituir dados.

Uma boa ordem de resolução é nomear os referenciais e eventos, identificar o que é próprio, calcular β e γ, escolher a relação e conferir o limite clássico. Tempo externo deve ser maior que o próprio no caso de relógio inercial em movimento; comprimento longitudinal, menor que o próprio. Para energia, a identidade entre E, p e m fornece uma conferência independente.

Referencial inercial
Referencial em que um corpo livre mantém velocidade constante.
Tempo próprio
Intervalo de eventos no mesmo local do referencial do relógio.
Comprimento próprio
Comprimento no repouso do objeto.
Massa invariante
Massa que aparece em E₀=mc² e não depende do referencial.
À esquerda, relógio de luz em repouso com percurso vertical; à direita, o relógio move-se e a luz segue percurso diagonal mais longo entre os mesmos tiques.
O trajeto depende do referencial; c permanece igual À esquerda, relógio de luz em repouso com percurso vertical; à direita, o relógio move-se e a luz segue percurso diagonal mais longo entre os mesmos tiques.
Relações e variáveis

Fórmulas explicadas

γ=1/√(1−v²/c²); Δt=γΔτ; L=L₀/γ

Compara medidas de tempo e comprimento.

Quando usar: Referenciais inerciais; contração ao longo do movimento; medir extremidades simultaneamente.

Cuidado: Não troque a medida própria pela observada.

c
velocidade da luz no vácuo Unidade: m/s
v
velocidade relativa Unidade: m/s
γ
fator de Lorentz
u=(u′+v)/(1+u′v/c²)

Compõe velocidades colineares com sinais.

Quando usar: S′ move-se a v em S; eixos paralelos.

Cuidado: A soma simples só aproxima velocidades pequenas.

u′
velocidade em S′
u
velocidade em S
E²=(pc)²+(mc²)²; K=E−mc²

Conecta energia total, repouso e momento.

Quando usar: Para partícula livre; fóton satisfaz E=pc.

Cuidado: Energia total não é energia cinética.

E
energia total Unidade: J
p
momento Unidade: kg·m/s
m
massa invariante Unidade: kg
Do enunciado à interpretação

Exemplo resolvido passo a passo

Exemplo resolvido

Qual relógio mede os eventos?

Enunciado

Uma nave passa a 0,6c. Entre dois tiques do mesmo relógio a bordo passam 8 s. Qual intervalo o laboratório atribui aos tiques?

Dados
  • v/c=0,6
  • Δτ=8 s
Fórmula
Δt=γΔτ
Substituição
γ=1/√(1−0,36)=1,25

Resolução

  1. Os tiques ocorrem no mesmo relógio da nave: 8 s são próprios.
  2. No laboratório esse relógio se move; Δt=1,25×8=10 s.
  3. O intervalo externo é maior, conforme a geometria do relógio de luz.

Resultado: 10 s.

Interpretação: Não se trata do tempo de chegada dos sinais ao olho do observador.

Pratique · Tente antes de abrir a solução

Exercícios com solução

Tente resolver sem consultar a resposta; uma estimativa inicial ajuda a perceber sinal, unidade e ordem de grandeza.

Exercício 1 · Exercício guiado

S′ move-se a 3 m/s em S. No modelo galileano, um evento tem x=20 m,t=4 s. Ache x′,t′. Para dois eventos simultâneos em S separados por Δx≠0, serão simultâneos em S′ na transformação de Lorentz com v≠0?

Ver solução passo a passo

Solução passo a passo

  1. x′=20−3×4=8 m; t′=4 s.
  2. Na transformação relativística, Δt′=−γvΔx/c² para Δt=0.
  3. Como v e Δx são não nulos, não são simultâneos em S′.

Resposta: 8 m e 4 s no modelo clássico; em geral não simultâneos no relativístico.

Exercício 2 · Prática independente

Uma barra de 15 m no repouso passa a 0,8c. Um relógio junto dela registra 6 s entre tiques. Determine γ, comprimento no laboratório e intervalo entre os tiques no laboratório.

Ver solução passo a passo

Solução passo a passo

  1. γ=1/√(1−0,64)=5/3.
  2. L=15×3/5=9 m.
  3. Δt=(5/3)×6=10 s; só a dimensão paralela contrai.

Resposta: γ=5/3; 9 m; 10 s.

Exercício 3 · Aplicação em nível de prova

Uma nave vai a 0,6c em relação ao laboratório e lança uma sonda a 0,8c para a frente em seu referencial. Qual velocidade da sonda no laboratório? E a de um feixe luminoso emitido para a frente?

Ver solução passo a passo

Solução passo a passo

  1. u/c=(0,8+0,6)/(1+0,48)=35/37.
  2. A soma clássica 1,4c falha; 35/37 é menor que 1.
  3. Substituir u′/c=1 dá (1+0,6)/(1+0,6)=1.

Resposta: Sonda (35/37)c; luz c.

Exercício 4 · Aplicação em nível de prova

Uma partícula tem energia de repouso 12 unidades e velocidade 0,6c. Determine E, K e pc nessas unidades. Confira E²−(pc)².

Ver solução passo a passo

Solução passo a passo

  1. γ=5/4; E=15 e K=15−12=3.
  2. pc=(5/4)×12×(3/5)=9.
  3. 15²−9²=144=12², conferindo a massa invariante.

Resposta: E=15; K=3; pc=9; invariante 144.

Exercício 5 · Checagem conceitual

Um relatório diz: “Michelson-Morley provou que a Terra está parada; um emissor rápido faz a luz no vácuo ultrapassar c”. Avalie as duas conclusões.

Ver solução passo a passo

Solução passo a passo

  1. O resultado não foi o deslocamento sistemático esperado pelo modelo de éter testado; não prova repouso terrestre.
  2. O segundo postulado mantém c no vácuo nos referenciais inerciais, independentemente da fonte.
  3. O modelo clássico continua uma aproximação útil quando v/c é muito pequeno.

Resposta: Ambas as conclusões são falsas.

Resumo da aula

Você aprendeu

  • Declare os eventos e a medida própria.
  • Velocidades pequenas recuperam aproximadamente o modelo clássico.
  • E, energia de repouso e energia cinética são quantidades distintas.
Revisão editorial

Fontes e atualização

Conteúdo revisado em 12/10/2026.